A influência árabe nos prédios pernambucanos

sábado, janeiro 05, 2019
Grande parte da arquitetura conhecida como portuguesa em Pernambuco é, na verdade, de origem árabe. Dos pátios de convento até elementos como azulejos e venezianas de madeira. Especificamente, a arte é dos mouros. Foram os árabes de regiões diversas que tomaram e dominaram a península ibérica por cerca de 700 anos.

“Ficaram ali por mais tempo do que a idade do Brasil. Além disso, a reconquista total do território se deu justamente quando a América estava sendo descoberta pelos países ibéricos: Portugal e Espanha, por isso a forte influência”, explica o presidente do Instituto de Arquitetura do Brasil em Pernambuco, Roberto Ghione. É dos berberes, oriundos do deserto africano do Saara, a ideia de criar as casas estreitas de porta e janela vistas ainda hoje no Sítio Histórico de Olinda, de acordo com o arquiteto Eduardo Pires.

“Aquela é uma solução para evitar o vento do deserto”, conta. Elas são também encontradas nos centros de incontáveis cidades do Interior, como Paudalho, na Mata Norte, e Pesqueira, no Agreste. Soluções arquitetônicas para além das casas conjugadas, contudo, ficaram limitadas à elite. “Podem ser vistas em casas senhoriais e nos claustros conventuais ordenados em torno de um pátio central. São soluções omíadas, que estiveram em Portugal”, explica Eduardo. “A limitação ocorreu porque, apesar de terem dominado por muitos séculos a região onde está hoje a Espanha, o mesmo não ocorreu em Portugal.” Por serem dirigentes, influenciaram prédios de classes altas como a dos eclesiásticos. A ordenação ao redor de um pátio é vista na casa grande do Engenho Massangana, atualmente abrigando um museu da Fundação Joaquim Nabuco, no Cabo de Santo Agostinho, RMR.




Os claustros, em conventos como o de Santo Antônio do Recife, na rua do Imperador. Ou no da Conceição, em Olinda. São vários. “Assim com os muxarabis, os pátios eram destinados especificamente para criar uma ventilação”, ressaltou o historiador Leonardo Dantas Silva. No Convento de Santo Antônio de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, além do pátio e do coro alto da igreja, a porta do Museu Pinacoteca é puramente moura, de acordo com o secretário de patrimônio da cidade, Jorge Barreto.

“O convento é do século 17. Nessa época, Portugal estava expandindo o seu estilo barroco mundo afora. E os elementos árabescaíam muito bem nesse contexto”, explicou. O complexo padrão que adorna a porta cria um jogo de luz e sombras típico da arquitetura árabe. Segundo Roberto Ghione, elementos como esse, relacionados com o conforto térmico e com a iluminação foram os mais aproveitados pelos portugueses.

“O que existe de transparência e ventilação cruzada aqui, hoje, tem raiz árabe.” O arquiteto, argentino, mas morando há 20 anos no Brasil, explica que o Nordeste brasileiro aproveitou os elementos vazados de uma forma diferente do resto da América colonizada pelos ibéricos. “Em lugares frios, a luz solar é importante no inverno e os muxarabis, elementos de origem árabe, permitem que ela entre no ambiente. Mas aqui, quando se é quente sempre, os beirais dos telhados são mais longos, para tentar sombrear as casas”, conta.

Os muxarabis que Ghione cita são treliças de madeira, hoje conhecidos principalmente por estarem presentes em duas edificações do Sítio Histórico de Olinda. “O Sobrado Mourisco é tombado duas vezes em nível nacional. Coletivamente, por fazer parte do conjunto arquitetônico daquela parte da cidade e individualmente, por causa das evidentes características mouras“, explicou o coordenador do Museu do Homem do Nordeste, Frederico Almeida. No casario, o imperador Dom Pedro II ficou hospedado quando veio a Pernambuco em 1859. A varanda projetada para a rua, vistas tanto no Sobrado Mourisco quanto no número 28 da rua do Amparo, tem relação com a ideologia do islã, de acordo com o especialista em conservação Jorge Tinoco.

“É uma forma de a mulher se manter no recato do lar enquanto acompanha o movimento de fora.” As casas conjugadas de porta e janela, que Eduardo Pires explicou ter origem no deserto do Saara e que evitam o vento quente ou frio, também apresentam em suas plantas influência da pudicícia da cultura árabe absorvida pelos portugueses. “Há sempre uma sala do tamanho da fachada. É até onde as visitas são permitidas, principalmente homens. E é onde as mulheres da casa não iam caso eles estivessem. Um corredor parte dessa sala e leva aos quartos e à sala de viver, no fim da casa, onde os moradores realmente convivem, longe da rua. Até o século passado, o comportamento ainda era esse”, comenta Tinoco.

Dessas casas, o arquiteto ainda lembra das tríplices telhas. Aquelas que levaram à criação do adágio popular “sem eira nem beira”. “São características mouras e exigem uma técnica complexa. Então, quem não tinha recursos financeiros não poderia pagar por uma mão de obra especializada que construísse a eira, a beira e a tribeira.”


Reinvenções

Soluções e elementos arquitetônicos árabes foram transmutados com o tempo e se apresentam em Pernambuco. “No fim do século 19, houve um período de transição na arquitetura conhecido como eclético. Muita coisa se misturou até que o modernismo chegasse. O neoárabe foi um dos resultados dessa época. No Recife, temos o que pode ser a forma mais evidente de influência árabe, que é o casarão onde hoje funciona o colégio GGE, na rua Benfica. O formato em arco das portas e janelas são características fortes dessa arquitetura”, explica Frederico Almeida, ex-superintendente do Iphan em Pernambuco.

O cobogó, invenção pernambucana do modernismo, também foi embebido do conhecimento mouro. “Foi criado no século 20 e é muxarabi transformado para o clima tropical. Segue-se também a questão da luz e das sombra que elas causam. Venezianas de madeira, de forma análoga, também estão relacionadas com os árabes. E nós projetamos muito com elas”, conta Roberto Ghione.

Os azulejos, mesmo os que conhecemos como portugueses, são reinvenções dos levados à península ibérica pelos mouros. O nome, inclusive, não vem do comum azul, como se pode imaginar, mas do árabe “Al Zuleycha” (pequena pedra polida). Na Basílica do Carmo, uma cúpula abobadada repleta de azulejos é comparada por Frederico Almeida com um tapete persa. “Você olha e lembra logo dos países árabes.”

Paulo Trigueiro , Folha PE

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