Torcedora faz B.O após agressão de policial militar

terça-feira, agosto 21, 2018
Com quase 50 mil pessoas nas arquibancadas, o discurso foi único. O Arruda estava lindo para o jogo contra o Operário, domingo (19), pela partida de ida das quartas de final da Série C. Foi único também o coro de dificuldade para ingressar no José do Rêgo Maciel e de crítica à atuação truculenta do efetivo policial designado para o evento. O portão 7 foi o mais comentado. Como de costume em jogos com volume muito grande de torcedores, o número de catracas não era suficiente para a quantidade de pessoas “convocadas” pela diretoria do clube. Tumultuou. Porém, não houve registro de conflitos que justificassem o uso do spray de pimenta por parte da Polícia Militar, tampouco a passagem da cavalaria por entre os torcedores.

Foi justamente nesse momento de entrada no estádio que duas torcedoras relataram terem sido agredidas por um policial militar. Leticia Borges, de 29 anos, teve uma reação alérgica aospray de pimenta e sentiu-se mal, sendo socorrida pela amiga Maiara Melo, de 26 anos. Maiara, na intenção de tirar a amiga do empurra-empurra, a levou para uma área após a barreira policial, onde são feitas as revistas para entrada no estádio, quando o oficial a abordou.

“De forma grosseira, nos mandou sair dali, disse que estávamos tumultuando. Eu disse que não poderia sair no momento porque estava ajudando a minha amiga que estava passando mal por causa do spray que eles tinham jogado. Ele disse ‘como é que é?’ Eu repeti que ela estava passando mal e ele me puxou pelo braço para sair. Eu disse que não ia sair e ele me deu um tapa na cara e me empurrou, dizendo ‘você vai sair sim, sua p*&%’. Confrontei dizendo que ele não podia fazer aquilo, que não estava acima da lei. Ele ainda tentou outro tapa, que não pegou em mim, mas no peitoral de outra amiga que estava próxima”, relatou Maiara, contando ainda ter ouvido que “isso é para aprender a respeitar homem”. Na segunda-feira (20) ela prestou queixa do ocorrido na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social, com prazo entre 15 e 30 dias para conclusão das investigações. Registrou o caso também na Delegacia da Mulher.

"É uma violência que tem uma série de nuances, primeiro por ser em um ambiente já marcado por violência, como é o futebol, segundo por ter sido em um jogo de um time de torcida majoritariamente popular, dando mais evidência a esse tipo de tratamento. Saindo um pouco do recorte macro do futebol, a gente tem uma violência mais específica, que é contra a mulher no futebol. Acho que é importante ressaltar isso porque a fala, quando ele a chama de p*&#, e os atos do policial são expressivos. Tem muito dessa questão de querer colocar a mulher no lugar dela, que, para ele, não deve ser em um jogo de futebol. Tem um despreparo evidente da polícia em todos os contextos, mas principalmente quando falamos da mudança nos tempos, que não existe mais essa coisa de lugar ser para mulher ou não. Considero muito grave o que aconteceu e não pode passar impune. É fundamental essa repercussão. Isso não é mais tolerado", analisou Natália Cordeiro, da Frente de Mulheres de Pernambuco.

As meninas que sofreram as agressões físicas e verbais fazem parte do Movimento Coralinas, um coletivo feminista de torcedoras do Santa Cruz. Elas não só frequentam o Arruda, como fazem ações para a melhoria do ambiente para as mulheres, como peladas semanais, reposição de papel higiênico nos sanitários e debates sobre a presença feminina nas arquibancadas e no clube. De pronto, disseram que procurarão e pedirão apoio ao clube, que está aberto para ouvi-las.

“Esperamos sentar para conversar sobre o ocorrido, tomar as medidas cabíveis. O estádio ainda é um ambiente muito masculino, então a mulher deve ser tratada com muito carinho e atenção. Não só as meninas da torcida do clube, mas todas as mulheres”, frisou o presidente do Santa Cruz, Constantino Júnior. “Tivemos o maior público dos últimos anos no Arruda e alguns contratempos que atrapalharam a atuação. Houve várias quedas de energia por volta das 15h e isso prejudicou muito. Sabemos que é um estádio antigo, então fazemos reuniões constantes para solucionar esses problemas de acesso. Estamos bastante chateados com tudo o que aconteceu. A questão das ruas, porém, é com a polícia”, completou o mandatário coral.

PM

Em nota, a Polícia Militar disse que “o planejamento de segurança para o jogo foi executado e assegurou, mesmo com o grande público, a normalidade e a tranquilidade dentro do estádio e seu entorno”. Disse ainda que disponibilizou um efetivo com 400 policiais e que “houve um atraso na abertura dos portões pelo clube mandante, e a PM teve dificuldades para ordenar o grande fluxo de torcedores, alguns empurrando e tentando entrar na frente de outros. Mas foi feito o uso da técnica e orientações dadas, contornando o problema”.



FOLHAPE

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