Como convencer o eleitor mais pobre

terça-feira, agosto 28, 2018
Cena na linha 5 do metrô paulistano dias atrás, sentido Capão Redondo. Duas senhoras dizem que não conseguiram renovar a gratuidade no Bilhete Ônibus Metropolitano (BOM), o passe usado nas linhas intermunicipais que levam às cidades periféricas na região metropolitana de São Paulo.

Mas a senhora é idosa, então tem direito, diz um passageiro, entre 30 e 40 anos, sentado na frente delas. Na verdade, é só mostrar a carteira ao motorista na entrada. Ele tem que deixar a senhora viajar e descer pela frente.

Passa então a explicar às duas todas as regras de gratuidade no transporte paulistano. Tira do bolso seus dois bilhetes únicos, um para uso no ônibus e metrô no perímetro urbano, outro intermunicipal. Diz-se beneficiário de um bilhete especial, que só pode ser renovado na prefeitura.

A senhora não. Pode renovar no guichê mesmo.

Fala então que, se quiserem, elas podem até viajar de graça no ônibus interestadual, para qualquer lugar do país.

É o passe livre, não conhece?

Tira da mochila um formulário de três páginas, mostra todas as regras que garantem a gratuidade.

Manda lá pra Brasília. Depois que aprovam, não precisa mandar outra vez pra lá não, é só renovar.

Ambas as senhoras se mostram interessadas. O passageiro se levanta então para descer na estação Campo Limpo e pergunta:

A senhora já sabe em quem vai votar?

Xi, verdade, esse ano tem que votar, né mesmo?

Parece que, se votar no Lula, vão soltar ele. Eu gosto do Lula porque eles roubam lá, mas pelo menos ele não tira nossos direitos, os direitos dos pobres.

Olha, diz a senhora. Sei não. Eu não voto mais no Lula, não. Lá na minha terra, na Paraíba, ele prometeu fazer um monte de coisa, mas não fizeram nada. O pessoal de lá não quer saber mais dele não. Acho que vou votar naquele outro lá.

Não é no Alckmin, é? No Alckmin, não dá para votar. Além de roubar, eles tiram todos os direitos dos pobres, acabam com aposentadoria, com tudo. A gente precisa de alguém que faça as coisa por nós, pelos pobres.

Não, não é nele não. É naquele outro que tão falando lá, como é o nome dele mesmo? Não lembro, a senhora bate com a mão na testa. Aquele lá que nunca foi... em nenhuma eleição. Um que parece que era policial…

O nome que ela não consegue encontrar, mas de quem já se fala na periferia das grandes cidades, é Jair Bolsonaro. O diálogo traduz o momento em que o principal grupo de eleitores indefinidos começa a decidir seu voto.

A senhora, beneficiária de programas sociais do governo, foi a típica eleitora de Lula e do PT nas últimas eleições. Mas decidiu que, nele, não vota mais. Olha com curiosidade para "aquele lá, que parece que era policial", dono de 20% das preferências no último Ibope.

Ela pertence a quase todos os grupos em que Bolsonaro enfrenta maior dificuldade para crescer: sexo feminino (13% das preferências, ante os 20% totais), baixa escolaridade (10%), baixa renda (entre 12% e 18%) e mais de 55 anos (14%).

Como veio do Nordeste (onde ele só tem 13%), configura de modo quase perfeito o eleitor mais resistente a Bolsonaro. Pelos números do Datafolha, a rejeição ao candidato do PSL subiu de 27% a 41% na menor faixa de renda e de 34% para 42% entre as mulheres – e ele herda apenas 7% dos votos que seriam dados a Luiz Inácio Lula da Silva, cuja candidatura deverá ser impugnada.

Ainda assim, a senhora que desce ao meu lado na estação Capão Redondo pensa em votar “naquele lá”, o “policial”. No horário eleitoral gratuito, que começa na sexta-feira, todos estarão atrás do voto dela. Terão quatro semanas para conquistá-lo.

Algo como 23 milhões, ou 53% dos 43 milhões de votos indefinidos, se concentram na parcela menos instruída do eleitorado (leia mais aqui). A comunicação para esse eleitor mais pobre envolve critérios distintos da disputa ideológica e da discussão de fundo econômico que estamos acostumados a acompanhar na cobertura poítica diária.

Ele, ou melhor, ela não está nas redes sociais, nem quer saber de influenciadores do Twitter. Suas preocupações são mais concretas: o que o candidato pode fazer "por mim", para melhorar "minha vida". Em sua memória, quem mais fez pelo pobre foi Lula, daí a popularidade resistente do ex-presidente condenado e preso por corrupção.

Não é um acaso que Ciro Gomes, que tenta conquistar o eleitorado petista, tenha adotado como mote de sua campanha uma proposta concreta: tira o nome do endividado do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Será só o que esse eleitor guardará dos 27 minutos da entrevista de ontem ao Jornal Nacional. O momento registrado é aquele em que Ciro entrega a William Bonner o livreto explicando como perdoará todas as dívidas do pobre (e ainda aumentará o imposto do rico...).

Demagogia? Populismo? Sem dúvida, como o próprio Bonner enfatizou na pergunta. Mas quem não tiver proposta à altura não convencerá mais da metade dos eleitores indefinidos. É por isso que Alckmin enfrenta dificuldades para atrair eleitoras como a senhora da linha 5.

Que Bolsonaro dirá a ela? As ideias liberais do economista Paulo Guedes, como privatizações ou a reforma da Previdência, provavelmente serão encaradas como mais uma forma de “tirar os direitos dos pobres” para dar dinheiro aos ricos.

O combate à corrupção não parece ter muita importância para ela. O problema de Lula não foi “ter roubado”, mas ter deixado de fazer o que "prometeu lá na Paraíba”. A linha-dura na segurança pública sempre seduz a população da periferia, região que mais sofre com o crime. Não é um acaso que ela esteja pensando em votar “naquele lá, o policial”.



G1

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