'Até o meu último suspiro, quero saber a verdade', diz mãe de pernambucana morta na Nicarágua

sexta-feira, agosto 03, 2018
Amigos e parentes da pernambucana Raynéia Lima, de 30 anos,morta na Nicarágua, se despediram dela no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, no Grande Recife, nesta sexta-feira (3). A jovem foi enterrada por volta das 11h. Durante o velório, a mãe da estudante de medicina, a aposentada Maria José da Costa, afirmou que vai lutar para saber o que aconteceu.

“Até o meu último suspiro, quero saber a verdade. Ela vai ter que aparecer”, disse.

"Ela teve que perder a vida para essa crise na Nicarágua ficar conhecida. Espero que a morte dela venha para resolver esse conflito de lá. Quero descobrir quem foi realmente que a matou e o país pagar por isso", afirmou a aposentada.

Emocionada, a mãe levou para o velório uma cópia do diploma de Raynéia, que estava concluindo a faculdade e fazia residência médica em um hospital de Manágua, capital do país da América Central. O documento foi uma homenagem póstuma da universidade. Ela foi morta a tiros no dia 23 de julho, quando deixava o plantão.

"Tudo o que sabemos é que o carro foi metralhado e que ela foi atingida no diafragma. Sabemos que tentaram a reanimação por 25 minutos, mas não conseguiram", conta Aline Costa, prima de Raynéia.

Sem querer chegar perto do caixão, Maria Costa prefere lembrar de Raynéia viva e feliz por realizar o sonho de ser médica.

"Quero guardar a imagem dela sempre viva dentro de mim. Ela foi para realizar o grande sonho da vida dela. Foram seis anos de sacrifício e eu, daqui, empurrava ela com a minha perseverança. Reconheceram que ela foi pra lá com o intuito de ser uma grande médica e mandaram o diploma da minha filha. Isso não tem dinheiro nenhum que compre", disse, emocionada.

“Esse diploma vai ser colocado no caixão dela. Quando eu morrer, também vou levar um comigo. Raynéia sofreu muito para conquistar esse documento", afirmou.

A aposentada disse que vai escrever uma biografia sobre a luta de Raynéia. "Ela não teve chance de estudar em Pernambuco. Não existe oportunidade para as pessoas carentes cusarem medicina. Ela teve que sair de Pernambuco para poder realizar o sonho de ser médica”, afirmou.

O corpo da jovem chegou ao Recife nas primeiras horas da madrugada desta sexta-feira (3). A liberação do cadáver foi feita uma semana após a liberação do Instituto de Medicina Legal nicaraguense.

“Eu sonhei em rever minha filha com aquele sorriso lindo e agora vim buscar ela num caixão”, desabafou.

A mãe da estudante lembrou da última conversa que teve com a filha, na véspera do crime. “Desde 2014, a gente não se encontrava, por causa dos custos das passagens. As últimas palavras dela [para mim] foram 'mainha, eu te amo'”, disse a aposentada.

Segundo a mãe de Raynéia, a estudante costumava falar sobre o clima de violência na Nicarágua e dizia que estava mais segura no hospital do que em casa.

Amigos e parentes da pernambucana vestiram camisetas brancas com a foto da estudante. Coroas de flores foram levadas para o cemitério.

"Percebemos claramente que isso foi um atentado político, um ato de terrorismo. Mataram uma médica porque ela estava trabalhando", afirmou o secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, Pedro Eurico, que esteve no velório de Raynéia.

Segundo ele, o estado ingressou com uma representação na Corte Interamericana de Direitos Humanos através do Ministério das Representações Exteriores. "Não podemos deixar esse crime impune", observou.

Também presente no velório a representante do Escritório de Representação do Itamaraty no Nordeste, Carla Chelotti, explicou que a embaixada vai trabalhar em conjunto com o governo de Pernambuco para encontrar respostas para o assassinato da pernambucana.

"Num primeiro momento, asseguramos que os restos mortais dela chegassem até Pernambuco. Agora, a embaixada em Manágua está pedindo esclarecimentos e acompanhando a investigação bem de perto", apontou a representante.

Entenda o caso

Raynéia Gabrielle Lima foi morta no sul de Manágua, onde cursava medicina, após ser atingida por tiros disparados por um grupo de paramilitares. No país desde 2013, a pernambucana se preparava para voltar ao Brasil em 2019, segundo a mãe.

Em 25 de julho, a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco se dispôs a arcar com os custos do traslado e do funeral de Raynéia Lima. A secretaria informou que faria o pagamento apenas do embalsamamento, porque a Copa Airlines dispensou o pagamento.

O governo de Pernambuco informou que solicitou ao governo federal que a Corte Interamericana de Direitos Humanos investigue o assassinato da jovem. Além de buscar esclarecimentos, o Itamaraty convocou a embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Martínez, a dar explicações ao Ministério das Relações Exteriores sobre a morte da estudante.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh) responsabilizaram o governo da Nicarágua por "assassinatos, execuções extrajudiciais, maus tratos, possíveis atos de tortura e prisões arbitrárias".



G1PE

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