A sopa que uniu a Suíça

quinta-feira, agosto 16, 2018
Em algumas manhãs, por volta das 8h, depois de ler a oração diária na Abadia de Kappel, em Zurique, a pastora aposentada e historiadora Susanne Wey-Korthals atravessa o pátio gótico do claustro para observar os campos ondulados onde a Suíça nasceu.

Do lago enorme em frente ao antigo mosteiro, antigamente chamado de a Casa do Silêncio e da Reflexão, Wey-Korthals pode ver o vilarejo de Kappel am Albis com suas casas com tetos íngremes, quintais bem cuidados e vários pombos empoleirados em celeiros de madeira.

Quando o tempo permite, ela segue atravessando as pastagens até um matagal de árvores um pouco mais à frente, calculando cuidadosamente seus passos no caminho, para um local de grande importância histórica - mas que qualquer visitante leigo jamais perceberia.

"Esses campos foram testemunhas de alguns dos momentos mais importantes da história da Suíça", diz ela, olhando para o prado envolto em névoa.

"Foi aqui que a Suíça encontrou seu meio-termo. Uma forma de se concentrar naquilo que tínhamos em comum, em vez de focar as nossas diferenças. Parece algo excepcional, mas fizemos isso com um prato de sopa."

O prato em questão é o milchsuppe, ou sopa de leite. Servido há séculos na adega mal iluminada da Abadia de Kappel - primeiro por monges, agora por chefs profissionais, como parte do ressurgimento do convento como um retiro espiritual -, o caldo amarelo-mostarda é sem dúvida uma das iguarias culinárias mais emblemáticas da Suíça. Mas, embora possa ser difícil encontrá-la nos cardápios de muitos dos restaurantes locais, ele continua enraizado na psique da nação. Tanto quanto o fondue e a raclette ou o bircher muesli (uma mistura de cereais com frutas), a milchsuppe é a Suíça em uma tigela.

Simples, mas deliciosa, a sopa era tradicionalmente feita com apenas dois ingredientes: leite e pão. Hoje, leva também sbrinz, um saboroso queijo parmesão, e depois é decorada com um raminho de salsa.

Antes um prato do dia a dia dos camponeses, a receita foi sendo passada adiante pela História, com sua essência repleta de significado - dos ingredientes fornecidos primeiramente pelos cantões em guerra ao pão que flutua em sua superfície - e moldada ao longo dos anos para que o sabor possa ser sentido a cada colherada.

Além do sabor, a história por trás da receita também é deliciosa.

Ninguém em Kappel am Albis consegue lembrar exatamente como a sopa surgiu - ou os verdadeiros ingredientes usados quando ela foi feita pela primeira vez no campo perto do mosteiro. Mas há uma história que todos contam: o caldo foi criado por acidente em junho de 1529, quando dois exércitos famintos se encontraram em um campo de batalha no que hoje é conhecido como Milchsuppestein, ou "pastagem da sopa de leite".

E desde então a sopa desempenhou um papel importante na história da Suíça, tornando-se um símbolo moderno de diplomacia e reconciliação.

Unindo inimigos

Durante a reforma protestante na Suíça, no início do século 16, a Milchsuppestein marcou a fronteira turbulenta entre os territórios de protestantes e católicos.

Ao norte ficava o cantão de Zurique, que defendia protestantes, liderado por Ulrich Zwingli, reformador como o alemão Martinho Lutero, que também difundia a reforma. Ao sul ficavam Zug e os cantões católicos aliados da Antiga Confederação Suíça, que acreditavam que a região deveria permanecer alinhada com o Vaticano e com Roma.

Havia uma grande divisão no país e, com ela, muita desconfiança. No verão de 1529, a diplomacia entre os dois cantões havia fracassado e soldados de Zurique com armaduras e piques (uma arma medieval que lembra um machado) marcharam ao sul para a guerra.

"As negociações continuaram, mas, para espanto de todos, a infantaria intermediou sua própria trégua em uma panela enquanto estava no campo de batalha", conta Wey-Korthals, observando o local onde a primeira batalha entre os cantões do país deveria ter provocado derramamento de sangue.

"Naturalmente, eles estavam com fome depois de tanto marchar, e Zurique tinha bastante pão e sal, enquanto Zug tinha um excedente de leite de suas fazendas. Daí nasceu a lenda da sopa", fala.

Nada poderia ser tão simples assim, é claro. As tensões permaneceram, levando à Segunda guerra de Kappel dois anos depois, quando os lados adversários mais uma vez tomaram o campo de batalha. Mas a mitologia da sopa já estava construída e provou desde então ser uma catalisadora da diplomacia suíça.

"Hoje em dia, quando políticos ou vereadores têm divergências, esse prato ainda é servido", fala a pastora, enquanto me conduz a um memorial de pedra que marca o local. "A receita até mesmo foi reivindicada pelo partido político de direita SVP, que a usa como um símbolo da Suíça que eles defendem. Todos os países aprimoram um pouco sua história, e fizemos o mesmo - transformamos a sopa em um ícone nacional."

Para descobrir um pouco mais sobre a sopa, a BBC foi até Zurique, no norte da Suíça, para ver até onde a história da milchsuppe iria.

Nomes como o de Ulrich Zwingli estão ligados à história da cidade e podem ser vistos em Zwingliplatz na Grossmünster, a igreja protestante de duas torres onde ele trabalhou até sua morte, em 1531. Ali, em 1519, ele se tornaria pastor - e, depois, um dos principais nomes da reforma protestante suíça.

Mas, para quem não se interessa pelas disputas religiosas da Europa, o espírito de renascimento de Zurique é suficiente para cativar os visitantes. E o que mais me atraiu ali não foi a Grossmünster ou sua igreja irmã, a Fraumünster, mas algo escondido no interior do templo das artes da cidade, a Kunsthaus.

Grande parte da história de Zurique é exibida em tela nas galerias do museu - e é ali também que a história da milchsuppe é retratada.

"Siga-me", diz o curador Tobias Haupt, enquanto passa por uma série de portas com códigos que vão do átrio público por um corredor cheio de caixas empacotadas para o departamento de restauração. "Por meio século essa obra nunca foi emprestada, mas amanhã ela está a caminho do Museu Nacional Suíço para uma exposição. Você está com sorte."

Algumas lâmpadas no teto foram suficientes para iluminar o motivo da minha jornada até ali: o tesouro nacional do pintor suíço Albert Anker, Die Kappeler Milchsuppe (A Sopa de Leite de Kappel), de 1869.

De perto, o quadro mostra um pedaço de campo transformado em uma cozinha onde vários camponeses trocam suas armas pesadas por pedaços de pão e colheres de pau para tomar a sopa servida em uma grande panela compartilhada entre a divisória de inimigos. "Esta é uma obra de arte tão importante para a Suíça, mas também para mim", diz Haupt, refletindo sobre a pintura mais famosa de Anker.

"Acredite ou não, mas eu me casei na Abadia de Kappel, com minha família vindo da Alemanha e minha mulher, da Índia. Nenhum de nós sabia dessa história, mas acabamos comendo a sopa no dia do nosso casamento. Foi tão mágico, e é por isso que eu só a comerei uma vez."

Como uma janela para o passado, tanto o Die Kappeler Milchsuppe quanto o milchsuppestein relembram feridas retratadas que marcam a História do país. Mas como Zurique comemora em 2019 os 500 anos de sua reforma protestante, ainda considerado um dos eventos mais influentes da história do país, os suíços fariam bem em parar e se dar conta do quão longe eles chegaram. Por mais arbitrário que seja esse marco, ele continua sendo uma parte indissociável da História da Suíça. Assim como a sopa.



G1

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