OAB-PE decide investigar advogado que aparece em vídeo em que brasileiros constrangem mulher na Rússia

terça-feira, junho 19, 2018
A Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) vai investigar a conduta do advogado e ex-secretário de Turismo de Ipojuca Diego Jatobá, um dos brasileiros que aparecem em um vídeo que mostra um grupo de homens constrangendo uma mulher na Rússia, durante a Copa do Mundo.

A investigação será conduzida pela Comissão da Mulher Advogada, que encaminhou a denúncia ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED) da Ordem. Na segunda-feira (18), a OAB já tinha divulgado uma nota de repúdio ao comportamento do membro.

No vídeo que circula nas redes sociais, o grupo finge entoar gritos de torcida, mas ensina palavras de baixo calão que se referem ao órgão sexual da mulher, que repete sem entender o que está dizendo.

De acordo com o presidente da OAB-PE, Ronnie Duarte, Diego Jatobá pode ter infringido o Código de Ética e Disciplina da Advocacia. Apesar disso, o órgão discute a tutela da investigação, já que o comum é que a seccional da região em que ocorreu a infração investigue o fato, mas este episódio específico ocorreu fora do Brasil.

"O Artigo 70 do nosso Código de Ética prevê que a competência para processar e julgar um advogado é da seccional do local onde foi cometida a infração. Vamos imaginar que um advogado pernambucano tenha ido a São Paulo e cometido uma infração ética. Esse processo deveria ter curso junto à seccional daquele estado. Nesse caso, como o episódio se verificou na Rússia, essa questão técnica deve ser apreciada pelo nosso Tribunal de Ética e Disciplina", explicou Ronnie.

Sobre o caso, Ronnie lamentou a atitude de Diego Jatobá e informou que um dos pontos a serem analisados no tribunal é se a conduta do ex-secretário de Ipojuca viola a dignidade e decoro que se espera de um advogado, tanto na conduta privada quanto na profissional.

"É uma atitude lamentável, dele e dos outros envolvidos no episódio. É causa de vergonha, não apenas para a advocacia, mas para a sociedade brasileira. Nosso código de ética exige do advogado uma conduta compatível com a dignidade e o decoro da nossa profissão e o tribunal examinará se houve, ou não, o cometimento de uma infração ética", disse.

O presidente da OAB-PE disse ainda que a investigação vai correr em sigilo e que não há um prazo para conclusão.

Entenda o caso

As imagens mostram um grupo de homens que finge entoar gritos de torcida em torno de uma mulher, mas ensina palavras de baixo calão que se referem ao órgão sexual dela. Sem entender o que está dizendo, ela repete com o grupo. A nacionalidade dela não foi identificada.

Outros dois integrantes do grupo que aparece no vídeo brasileiro foram identificados. O policial Eduardo Nunes é tenente da Polícia Militar em Santa Catarina. Segundo a corporação, ele deve responder a um processo administrativo assim que retornar ao Brasil.

"A corporação não corrobora com este tipo de atitude que é incompatível com a profissão e o decoro da classe, previsto no regulamento disciplinar, independentemente de estar em período de férias, folga de serviço ou qualquer outra situação de afastamento, devendo portanto, responder por suas atitudes", diz a PM em nota divulgada na segunda (18).

O engenheiro civil Luciano Gil Mendes Coelho é natural de Picos, no Piauí, e ex-integrante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Piauí (Crea-PI).

"Já pedi desculpas a todas as mulheres. Todos nós somos seres humanos e erramos e além disso não conhecíamos ninguém, bebemos um pouco mais da conta e foi isso. Alguém que não conheço filmou. Mas aqui todos estavam brincando e todos entendem a agitação, mas mulheres realmente têm razão em questionar", declarou ao G1 nesta terça (19).

Nota de repúdio

A Procuradoria Especial da Mulher do Senado divulgou uma nota de repúdio sobre o caso, que foi lida em Plenário pela Procuradora da Mulher, a senadora Vanessa Grazziotin (PC do B-AM).

Confira o texto, na íntegra:

A Procuradoria da Mulher do Senado lamenta e repudia a atitude do grupo de torcedores brasileiros que ganhou repercussão internacional durante a Copa do Mundo realizada na Federação Russa.

Explorando a oportunidade do clima de festa, eles se acercaram de uma moça estrangeira e entoaram, coletivamente, expressões de conteúdo misógino, pornográfico, com ofensas ao corpo da mulher. Esse grupo de torcedores envergonha nosso país. Eles se aproveitaram do fato de a mulher não compreender nosso idioma para humilhá-la e ridicularizá-la.

Postado na internet, o fato multiplica a gravidade da cena, que mostra em poucos segundos porque as mulheres brasileiras têm razão em lutar contra ao machismo e uma realidade de estupros e feminicídios que os homens insistem em pintar de cor-de-rosa.

A cultura do estupro brutaliza homens do Brasil desde sua formação mais tenra e por vezes os acompanha até a idade em que deveriam mostrar comportamento adulto e maduro.

Que o repúdio das mulheres do Brasil e do mundo tenha um caráter educativo para esses homens e que a solidariedade coletiva feminina tranquilize e alivie o coração de nossa irmã estrangeira.

Voto de protesto

A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) aprovou por unanimidade um voto de protesto sobre o conteúdo do vídeo, nesta terça-feira (19). O voto foi aprovado em reunião ordinária da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Na segunda-feira, a Comissão já havia realizado um ato de repúdio ao vídeo.

Confira o texto, na íntegra:

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa de Pernambuco expressa indignação pelo comportamento machista e misógino do advogado pernambucano Diego Jatobá, evidenciado em vídeo que constrangeu o País, em que o rapaz aparece ao lado de outros torcedores brasileiros humilhando uma estrangeira, na Copa do Mundo da Rússia.

O teor do vídeo - disseminado massivamente em todo o Brasil - aponta para um comportamento descontraído dos agressores, que tratam as ofensas como brincadeira. O Poder Legislativo tem a missão pedagógica de dar visibilidade à violência moral e psicológica travestida de piada inocente. Porque assédio não é brincadeira.

Os membros deste colegiado, por debaterem constantemente as diferentes facetas da violência contra a mulher, conhecem o ciclo a que as vítimas de agressão são expostas. A violência começa com a falta de respeito e culmina na violação máxima, que é o feminicídio. Daí a importância de frear este tipo de comportamento nas horas de relaxamento e descontração aparentemente inofensivas em que o machismo arraigado se manifesta.

Pernambuco ocupa lugar de vanguarda na luta contra os diversos tipos de violência que derivam da cultura patriarcal e misógina. O referido caso ocorreu com uma mulher estrangeira, mas não por isso perde a gravidade. A luta das mulheres em todo o mundo é plural, pois já se sabe que não é possível resolver distorções culturais individualmente. Estamos unidas para preservar a identidade coletiva da mulher. E isso requer uma união de mulheres e de homens em uma mesma causa.

Repercussão

Desde que foi divulgado, o vídeo tem repercutido bastante, de forma negativa, nas redes sociais. Alguns artistas utilizaram o Instagram para expressar o descontentamento sobre a conduta dos brasileiros envolvidos na gravação.

Ivete Sangalo afirmou que era "lamentável que muitos de um mesmo grupo participam desse papelão machista. Falta de lisura, de educação, de hombridade. Sinto tanta vergonha por vocês, garotos".

Fafá de Belém escreveu "que coisa horrível! Quem será que criou estes babacas?". A modelo Gisele Bündchen lamentou, dizendo "que triste esses seres tão inconscientes".

Na mesma plataforma, Preta Gil estampou na página dela que "machistas não passarão". Também houve comentários das cantoras Zélia Duncan e Maria Gadú.



G1PE

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