Gabinete de Conte recebe voto de confiança do Senado italiano, primeiro passo para começar a governar

terça-feira, junho 05, 2018
O governo de Giuseppe Conte, formado pelo antissistema Movimento Cinco Estrelas (M5S) e o partido de ultradireita Liga, obteve nesta terça-feira (5) o voto de confiança do Senado da Itália, que é o primeiro passo para governar efetivamente. O gabinete de Conte será submetido ao mesmo trâmite na Câmara dos Deputados nesta quarta.

O governo obteve 171 votos a favor, 117 contrários e 25 abstenções. Ele também deverá ser aprovado na Câmara, já que o M5S e a Liga contam com maioria absoluta.

Novato em política, o advogado de 53 anos enfrentou o Senado, onde fez seu primeiro discurso de política geral, antes de pedir a confiança do Parlamento. No discurso, defendeu com ardor a política "populista"que colocará em prática: luta contra o "negócio" da imigração, reativar o crescimento e a abertura para a Rússia.

"Se populismo significa ser capaz de ouvir as necessidades do povo, então nós o reivindicamos", afirmou Conte, que desde sexta-feira lidera o primeiro governo populista em um país fundador da União Europeia (UE). "Sou um cidadão que se declarou disposto a assumir esta responsabilidade de presidente do Conselho e a ser garantidor do contrato de mudança", declarou.

Não obstante, disse estar "consciente da responsabilidade que assumiu e bem consciente das prerrogativas que a Constituição atribui ao presidente do Conselho".

Sem surpresa, Conte confirmou os objetivos contidos no "contrato" de governo: redução dos impostos, luta contra a imigração clandestina, salário-cidadão (uma espécie de renda de inserção para os mais pobres) e a revisão de certas regras europeias, começando com o direito de refúgio previsto no acordo de Dublin, que deixa o essencial da carga de acolhida de migrantes aos países localizados na primeira linha, como a Itália.

Crise migratória

Durante o discurso, Conte insistiu em um sistema "automático" e "obrigatório" de repartição dos solicitantes de refúgio na Europa.

"Colocaremos fim ao 'negócio' da imigração, que aumentou descontroladamente sob pretexto de uma falsa solidariedade", afirmou, retomando a tese de Salvini, também ministro do Interior.

Em relação aos assuntos europeus, Conte afirmou que a colossal dívida italiana deve ser reduzida, favorecendo a criação de emprego, e não com medidas de austeridade, conforme os compromissos do M5E, ao qual é afim, e da Liga.

Ele não deu detalhes sobre o financiamento das medidas previstas no "contrato de governo", que poderiam representar alguns milhões de euros. Embora tenha confirmado a vontade do governo de instaurar uma "flat tax", imposto de 15% e 20%, não deu nenhuma data para sua implementação e do salário-cidadão.

O chefe de governo reafirmou o pertencimento da Itália à UE e sua vontade de abertura em relação à Rússia, embora tenha reforçado a adesão de seu país à Otan.

"A Europa é a nossa casa", disse Conte, acrescentando que quer uma "Europa mais forte, mas também mais justa".

"Seremos os promotores de uma revisão do sistema de sanções", disse aos senadores, 24 horas depois que o presidente russo, Vladimir Putin, desmentiu qualquer intenção de "desestabilizar ou dividir" a UE.

Conte deve ir ao Canadá para a sua primeira cúpula do G7, pelo qual a votação na Câmara dos Deputados, onde tudo indica que seu governo será referendado, acontecerá sem a sua presença.

Processo difícil

Depois de quase meses de negociações, com direito a idas e vindas inéditas mesmo para um país acostumado a crises políticas como a Itália, o M5S e o Liga chegaram a um acordo com o presidente Sergio Mattarella, que exigia garantias para a permanência do país na zona do euro.

Conte fez o juramento como primeiro-ministro perante o presidente na última sexta-feira, mas antes de governar deve receber os votos de confiança das duas casas.

Ele é visto como um advogado e professor sem experiência política, já que nunca ocupou cargo de administração pública. Seu currículo gerou polêmica depois que vários meios de comunicação informaram que ele não realizou alguns cursos que figuram no documento.



G1

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