Lisboa na primavera

sexta-feira, maio 25, 2018
"Uma cidade do sul, uma cidade ao mesmo tempo ardente e fresca que continha no horizonte a promessa do mar e do vento salgado varrendo-lhe as colinas."
(Simone de Beauvoir)


A frase da filósofa francesa é vista em grafites nos muros, em vários locais de Lisboa, e descreve de modo realista o que senti nestes dias que lá passei: a primavera. Ao sol, um calor intenso, na sombra a sensação de brisa e frio. Uma cidade de sete colinas em que os sinos badalam para anunciar as horas, as meias-horas e os quartos-de-hora. Ao longo do dia e até certa hora da noite o som suave nos lembra a passagem do tempo, sem nos apressar como fazem os relógios digitais das cidades contemporâneas.

Conheci Lisboa pela primeira vez em 1959 quando o navio no qual voltava da Itália para o Brasil, ao final do período em que meu pai trabalhou em Viena, na Áustria, parou para reabastecer. Foi um dia apenas, eu era uma menina de quinze anos e me lembro muito bem do mosteiro dos Jerônimos, das senhoras de negro e do ambiente triste da ditadura de Salazar.

Voltei algumas vezes depois para congressos e seminários e em 2012 com meu filho Domingos, para comemorar o fim do meu tratamento do câncer.

Todas as vezes que lá estive gostei muitíssimo. No entanto, desta vez, fui de férias totais acompanhando meu netinho Dante, meu filho e minha nora, estes em um período de bolsa de pesquisa, por três meses, em uma residência artística na instituição Hangar, no alto da Graça. Foram as melhores férias da minha vida.

Fiquei hospedada em uma das colinas, muito perto do miradouro Nossa Senhora do Monte. De lá via os telhados vermelhos das casas que descem a encosta até o rio Tejo, a ponte que liga suas margens, o castelo de São Jorge na colina à esquerda e o Cristo Redentor. O bairro da Graça está cheio de turistas como toda a cidade, mas guarda ainda as velhas e admiráveis tradições com suas tascas, o fado cantado ao longo das tardes e pela noite adentro, os pequenos restaurantes onde a comida é farta e deliciosa. Tive até o privilégio de ver, no dia 13 de maio, a procissão do dia de Nossa Senhora de Fátima, com velhas rezando e cantando a música que aprendi na infância em louvor à Virgem.

Lisboa estava alegre na primavera. Muitas flores e as praças remodeladas. Os citadinos mais velhos reclamam muito do turismo e das perdas que tiveram com esse enxame de gente do mundo todo. Os mais novos festejam a cidade mais iluminada, mais cheia e mais vibrante.

O que mais me fez feliz foi estar com Dante, Domingos e Carol todos os dias em uma cidade aprazível e longe dos tristes fatos que ocorrem no cotidiano de nossas vidas no Rio de Janeiro. Dante tem um ano e quatro meses. É um encanto. Forte e carinhoso gostando de tudo, principalmente dos patos que encontramos em muitos jardins, sobretudo na Fundação Calouste Gulbenkian. Ele vibrou e identificou imediatamente o animal verdadeiro com o pato do desenho da música de Vinícius que ama e cujo prazer de ouvi-la interminavelmente deve ao avô Luiz Alphonsus.

Andar pela rua sem medo de bala perdida, de assalto e saber que as drogas, todas elas, são permitidas, embora a venda seja proibida, faz a vida urbana ficar mais humana. Até os policiais são simpáticos. Os imigrantes são muitos e fazem o trabalho pesado, mas não vi ninguém reclamando. Todos têm acesso a boas escolas, aos serviços médicos e à moradia.

Claro que os meus olhos viram do ponto de vista de quem não está lá para a vida toda, embora pela primeira vez tenha pensado como seria bom viver em Lisboa, sem pressa, sem sustos, sem essa loucura de naturalizar a desigualdade, a morte e sem a banalização do mal.



G1

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