Cacique Xikão: Vinte anos sem o guerreiro

domingo, maio 20, 2018
O líder, a morte e a semente para o fortalecimento indígena. Esses são os elementos centrais de um dos enredos mais marcantes e trágicos da trajetória recente do povo Xukuru de Ororubá, e onde o protagonista é Francisco de Assis Araújo, o cacique Xikão. Morto a tiros há exatos 20 anos, aos 48 anos, em uma manhã de 20 de maio de 1998, em Pesqueira, no Agreste pernambucano, Mandaru (como também era conhecido) transformou-se em mártir. Incorporou à sua memória toda a história de luta e perseguição aos índios, que se multiplicava nos quatro cantos no Brasil àquela época e que se perpetua ainda hoje. No entanto, somou também a sua imagem o ideal de perseverança para conquistas políticas e sociais. “Plantaram Xikão”, repetem seus irmãos sobre sua partida. O resultado dessa agricultura da vida foi o florescer de um novo tempo, com conscientização indenitária, direitos e avanços do povo, que hoje vai muito além da questão fundiária.

Desde a última quinta-feira, mais de três mil famílias Xukurus, de outras etnias do Estado e do País estão reunidas na Serra do Ororubá, em Pesqueira, para as celebrações pela passagem dos 20 anos do assassinato de Xikão, que terá o ápice neste domingo (20) com um ritual no seu túmulo e o tradicional ato público no centro da cidade. Durante esses últimos quatro dias, a aldeia Pedra d’Água também realiza a 18ª assembleia anual dos Xukurus, que neste ano teve toda a programação voltada para lembrar a importância do Mandaru no passado, para o presente e futuro.

Com o tema “Limolaygo Toype”, ou seja, “Eu sou Xikão”, o grande encontro pretende reavivar, principalmente nos jovens, as virtudes do ícone caboclo que foi responsável pela retomada de várias áreas invadidas por posseiros na Serra de Ororubá nos anos de 1990, a inscrição de direitos civis e sociais para os índios na Constituição Federal de 1998, além da chegada de educação e saúde nas aldeias do seu povo.

Há um jeito de escrever a história oficial da luta dos índios no Brasil e outro de relatar a verdadeira história dos povos que deram origem à nação. Poucos são os que sabem que nos anos de 1950 e início de 1960, auge da luta pela reforma agrária radical das ligas camponeses, os Xukurus participavam dessa luta pleiteando a demarcação das suas terras como os quilombolas também o fizeram. Depois veio o silêncio imposto pela ditadura militar de 1964.

"O cacique Xikão retomou a luta do povo Xukuru como líder político lutando por benefícios sociais e o direito à demarcação das terras do seu povo”, contou o fundador e diretor da ONG Mirim Brasil, Anacleto Julião. Aos 66 anos de idade, Julião tinha uma parceria política e pessoal com Xikão, chegando a denunciar internacionalmente os riscos que o povo e seu líder estavam sofrendo de fazendeiros e posseiros da região. “Xikão representa o martírio de milhões de indígenas assassinados durante séculos no Brasil. Por isso, tornou-se símbolo”, reforça.

Quem também esteve ao lado de Francisco de Assis nos embates políticos dos “brancos” contra os indígenas foi a antropóloga e professora da Universidade de Pernambuco (UPE), Vânia Fialho, que foi responsável pela identificação e delimitação do território Xukuru em 1989. Para ela, Mandaru foi o protagonista de uma mobilização sem antecedente entre os povos indígenas, mexendo na estruturação fundiária e na afirmação do poder no Brasil de sua época.

“Pude acompanhar vários dos momentos do processo de regularização fundiária, que culminou com a condenação do Estado Brasileiro em 2018 (pela Corte Interamericana de Direitos Humanos), exatamente pela morosidade no caso da regularização e desintrusão da terra indígena. Convivi com Xikão no período de sua afirmação como cacique, sua projeção local, nacional e internacional. Sua morte provocou muita indignação e tenho convicção que o Estado Brasileiro tem responsabilidade por ter deixado isso acontecer, além do reiterado desrespeito e negligência na investigação do seu assassinato”, ressalta.

Linha biográfica >

1950
em 23 de maio nasce Francisco de Assis, na aldeia Cana Brava, em Pesqueira

1968
aos 18 anos foi servir ao Exército

1970
casou-se com Zenilda Maria com quem teve 7 filhos

1975
viajou para São Paulo para trabalhar como caminhoneiro

1985
Xikão ingressa na luta do povo Xukuru de Ororubá

1987
participa da Assembleia Constituinte em Brasília

1988
cria o Conselho de Representantes das 24 aldeias Xukurus

1989
Xikão inicia o seu cacicado oficialmente e há a delimitação do território Xukuru

1990
retomada da aldeia Pedra D’Água

1991
criação da Associação Xukuru

1992
retomada do território Caípe e da fazenda Queimada

1994
retomada dos territórios de Caldeirão e de Pé de Serra dos Nogueiras

1995
demarcação das terras indígenas

1997
retomada de Tionante e Sítio do Brejinho

1998
assassinato de Xikão



FOLHAPE

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